Hayley ao The Fader: “Eu não me sinto tão esperançosa quanto eu me sentia quando era adolescente”

Além de trazer Hayley Williams na capa, a edição de julho/agosto da revista The Fader conta com uma entrevista intimista com a vocalista e um photoshoot incrível da banda. Confira na tradução:

 

Emoções adultas

Hayley Williams, do Paramore, tem sido um ícone da angústia de uma geração inteira. Agora, aos 28 anos, ela está descobrindo que tem suas próprias inquietações para lidar.

 Quando eu conheço Hayley Williams pela primeira vez, ela me atinge com um abraço e o maior sorriso que você poderia esperar. Nós estamos em um lugar de lámen na sua cidade natal, Nashville, tagarelando sobre os aperitivos de milho fritos que estão entre nós, bebericando chá, com a Hayley apoiando seus dois pés, cobertos por Vans de glitter, na cadeira ao lado dela.

Ela trata quase todo mundo com essa familiaridade fácil, pelo que parece. Mais tarde naquele dia, a gente cruza a cidade no carro dela, um Fiat azul cheio de garrafas de água pela metade, parando em lugares que ela ama. Um cara com piercing no nariz e cabelos bagunçados, em um bar de sucos, recebe o mais caloroso olá; um homem com longos dreads, que trabalha na boutique de uma amiga dela, recebe uma saudação radiante e um aperto de mãos forte. Passe por qualquer porta com ela, e você não poderá ter certeza se a Hayley conhece a pessoa que trabalha lá dentro durante toda a sua vida ou se ela está os conhecendo pela primeira vez.

Esse senso de intimidade imediata tem a servido bem. Hayley assinou com a Atlantic Records como vocalista e compositora do Paramore quando ela tinha 15 anos. Com o cabelo carmesim tingido de uma super-heroína de histórias em quadrinhos e uma voz forte que ela usava mais para gritar do que para cantar, ela se tornou uma estrela do rock adolescente e um ícone para crianças emo e punk ao redor do mundo. Em faixas nervosas como “Emergency” e “Misery Business”, ela provou ser uma compositora sensível e poética, escrevendo canções sobre crescimento, primeiro amor e primeiro coração partido, sempre com um senso de força e excitação. E isso foi ainda mais poderoso porque os semelhantes à banda – grupos como My Chemical Romance e Fall Out Boy – eram liderados, quase exclusivamente, por homens agoniados.  Paramore vendeu milhões de álbuns, se apresentou no TLR, e até mesmo gravou o single principal para o primeiro filme de “Crepúsculo”, o essencial melodrama de ensino médio da era Obama.

Conforme Hayley e eu discutimos a essência do novo álbum da banda, After Laughter, no almoço, ela descansa seu queixo na palma da própria mão. Ela tem 28 anos de idade agora, e o estilo de cabelo que costumava ser sua assinatura deu lugar para um loiro levemente sintético que cai livremente como uma cascata sobre seus braços. “Cara, eu não sei”, ela fala, sobre os tópicos mais obscuros do álbum. “Eu não me sinto tão esperançosa quanto eu me sentia quando era adolescente”.

Na primeira vez em que se escuta, o álbum pode parecer até alegre, mas está claro que a Hayley ainda está passando por alguns problemas profundos nas letras. “Reality will break your heart/ Survival will not be the hardest part” [“Realidade quebrará seu coração/ Sobrevivência não será a parte mais difícil”], ela canta em “26”, sua voz carregada com tristeza. “If I lay on the floor/ Maybe I’ll wake up” [“Se eu deitar no chão/ Talvez eu acorde”], ela clama na surpreendentemente corajosa “Forgiveness”, uma canção que ela escreveu sobre alguns momentos difíceis com seu marido Chad Gilbert, o guitarrista da banda pop punk New Found Glory. Em “Fake Happy” ela canta sobre como ela sorri apenas para fazer as outras pessoas pensarem que ela está bem, e que supõe que todo mundo é secretamente insincero.

Essa melancolia é diferente dos problemas de sua adolescência – é mais reflexiva, adulta, debilitante. Ela diz que vem lutando com a depressão nestes últimos anos, pontuados por momentos em que ela ficou na cama o dia todo assistindo velhos episódios de “The Office”. Ela diz que isso ficou tão ruim, em certos momentos, que ela se fixou na morte por tempo demais para seu próprio conforto e encontrou um terapeuta: “Pela primeira vez na minha vida, não havia luz no fim do túnel. Eu pensei ‘eu só queria que tudo parasse’. Não era no sentido de ‘eu vou tirar a minha vida’. Era apenas desesperança. Tipo, ‘qual é ponto?’. Eu não acho que eu entedia o quão perigosa a desesperança é. Tudo dói”.

Hayley até saiu secretamente da banda por um curto período no verão de 2015, se sentindo exausta e pensando que ela não tinha mais nada para falar ou cantar. “Tinha acabado para mim”, ela fala. “Eu pensei ‘tem que haver alguma outra coisa na qual eu sou boa em minha vida. Talvez esteja na hora de eu achar isso’”. Mas depois que ela saiu, Taylor York – seu principal parceiro de composição e, com Justin Meldal-Johnsen, o co-produtor de After Laughter – começou a mandar faixas inacabadas para ela, apenas para ver o que aconteceria. Ele tem uma história com depressão, também.

“Nós dois tínhamos dúvidas e tínhamos união nisso”, Taylor fala. “Eu disse a ela que ela não tinha que fazer as coisas. Mas eu apenas continuei escrevendo e então teve um momento em que ela conseguiu de novo”. Hayley começou a acompanhar os instrumentais de Taylor e acabou escrevendo uma melodia e letras para “Forgiveness”, a primeira música do que se tornaria o After Laughter. Eles continuaram criando dessa maneira, com Taylor enviando para ela ideias básicas e Hayley se soltando sobre elas. E as músicas continuaram vindo.

Em Nashville, Hayley e eu desembarcamos em um bar de sucos e, entre smoothies, eu conto para ela o quanto estou impressionado com sua sociabilidade fácil, considerando que ela está processando algumas coisas bem difíceis, até mesmo a morte, no After Laughter. Ela ri um pouco nervosa e, pela primeira vez no nosso dia, o brilho dela diminui um pouco, também. Para ela, ser amigável parece óbvio, ela me conta, e estranho que eu tenha apontado sua educação.  Se o céu caísse, ela diz, gentileza é como ela gostaria de ser lembrada. “Cara, eu apenas fui ensinada a ser legal. Um dia, eu terei partido, e eu preciso aceitar que o amanhã não é prometido. Eu estou bem com o modo como estou vivendo hoje? É a única coisa que eu posso controlar. Se eu não tivesse outro, o que eu fiz com todos os meus hojes? Estou fazendo um bom trabalho?”. Ela olha diretamente para mim. “Como você quer partir?”.

Antes de Hayley Williams se tornar uma líder no pop punk, ela era mais uma Motown buff. Nascida em Mississippi, ela era tímida, mas começou a cantar em um coral infantil da igreja. Depois que os pais dela se separaram, o segundo casamento da mãe dela se tornou volátil. “Eu voltei para casa um dia depois da escola e minhas malas estavam feitas”, ela conta. “Nós não tínhamos para onde ir, então moramos com uma amiga dela em um trailer duplo bem próximo ao estacionamento da escola”. Eventualmente, quando outra amiga da mãe dela se mudou para Franklin, Tennessee, perto de Nashville, mãe e filha seguiram. Elas pensaram que se música era do que a Hayley queria fazer parte, Nashville não era um lugar ruim para se estar por perto.

Aos 13, Hayley estava escrevendo poesia e se apresentando com uma banda funk de cover local por dinheiro. Na escola, implicavam com ela por seu profundo sotaque sulista e ela sofria para achar relações duradouras. “Eu sofri tanto bullying quando me mudei para cá que eu comecei a praticar como falar a palavra ‘awesome’ sem um sotaque”, ela diz. Preocupada com o modo como ela era tratada em aula, a mãe dela descobriu, em uma igreja que se encontrava semanalmente, um tutor que dava aulas em casa, e tirou a Hayley da escola pública. “Ela disse ‘eu posso confiar em você para ficar sozinha em casa quatro dias por semana?’ e eu disse ‘sim. E escreverei músicas o dia todo’”. Por ela ser tão solitária, a mãe dela encorajou-a cada vez mais a se juntar a uma banda por período integral, para que ela pudesse fazer amigos. Hayley concordou, parcialmente por causa do quanto ela amava Hanson: “Três irmãos que tocam músicas juntos? Qual é. Eu fiquei tipo ‘eu quero isso’”.

No programa de aulas em casa, ela conheceu os irmãos Zac e Josh Farro, que, apesar de terem somente 11 e 14 anos, respectivamente, já tinham gravado algumas músicas. Ela estava entusiasmada e eles a receberam de imediato. “Crescer ouvindo pop e música R&B, e então ser jogada no mundo, onde eu estou ouvindo Elliott Smith e Radiohead e Deftones, eu fiquei tipo ‘o que eu faço com isso? Eu nunca tentei escrever músicas assim’”, ela lembra. “[Mas] Zac começou a tocar uma batida de bateria, e de repente isso se tornou uma música chamada ‘Conspiracy’, que está no nosso primeiro álbum. Eu, literalmente, apenas sentei com o microfone e tranquilamente cantei as palavras que eu havia escrito”.

A banda, que incluía dois irmãos, foi formada e começou a se apresentar em lugares como os eventos para o grupo jovem da igreja, mas a Hayley também estava escrevendo e gravando suas próprias demos, mandando-as para gravadoras. Avril Lavigne tinha recentemente estourado, estimulando o apetite da indústria por alternativas punks de Britney e Christina. “Não acho que eu teria sido assinada se Avril não tivesse acontecido”, ela fala. “De repente, eu estava em Nova Iorque tocando para LA Reid”. Um número de gravadoras queria ela, mas apenas a Atlantic disse que ela poderia continuar com a banda ao invés de ir solo. Havia uma pegadinha: eles ofereceriam um contrato separado para a Hayley por meio da Atlantic, mas os outros membros da banda iriam apenas obter um acordo com uma subsidiária de rock deles, a Fueled By Ramen.

Paramore lançou o álbum de estreia, All We Know Is Falling, quando ela tinha 16. Eles foram convidados para a Warped Tour, primeiro em um palco lateral, e então, na terceira vez que estavam na conta, como um evento principal. Warped Tour, na época, era uma mistura de emo, pop punk e bandas post-hardcore – qualquer coisa que pudesse ser classifica como alternativa – e Paramore, com suas músicas sensíveis mas afiadas, estava em algum no lugar no turvo meio. Em vídeos de performances antigas, Hayley se destaca por seu fervor e músculo. Ela pula ao redor do palco, faz headbang com seu cabelo vermelho e traz fãs ao palco para cantarem com ela.

“Era meu ensino médio”, ela fala sobre a Warped Tour. “Nós aprendemos a nos conectarmos com pessoas de um palco”. Ela era uma das poucas mulheres no faturamento primário. “Na metade [do festival], tinha garotas aparecendo com o cabelo igual ao meu”, ela fala. Ela desenvolveu uma presença formidável: em 2007, em um show na Alemanha, onde eles estavam dividindo o palco com a mais brutal Korn, Hayley jogou uma garrafa – achando que alguém da audiência havia jogado na banda como forma de desprezo – no público. Ela acabou percebendo, depois, que era apenas uma garrafa deixada ali, mas ela mostrou sua ousadia mesmo assim.

Em turnê, seu pai dirigiria eles de cidade a cidade em uma pequena van. “Nós comíamos PB&Js todo dia”, ela relembra carinhosamente. Ela finalmente conheceu seu agora-marido nos bastidores quando tinha 18 anos; eles começaram como amigos antes que isso se tornasse uma relação amorosa. Naquela época, ela estava namorando Josh, também seu parceiro nas composições. “Nós éramos crianças! Mesmo quando a gente namorava, não parecia que namorávamos. Era tipo ‘oh, legal, nós nos beijamos algumas vezes’”, ela diz. Todos na banda tinham sido criados como cristões e, embora todos eles tenham adotado uma pegada mais leve na espiritualidade, naquele tempo eles preservavam uma atitude saudável mesmo quando cercados pelo caos do circuito do festival. “Nós crescemos no cinturão da Bíblia”, fala Zac. “Há várias regras que foram definidas pela igreja. Não beba, não faça sexo, não use drogas, não xingue”.

Além da Hayley, sete membros circularam dentro e fora do Paramore desde 2005, alguns de maneira bem amargurada. Pode ser um pouco difícil de acompanhar e a mídia se extasia com o drama, com os rumores circulando sobre o porquê de os membros terem saído: ambições solo da Hayley, disputas por créditos nas composições, e apenas pura briga. Agora eles são um trio: Taylor, que está na banda desde 2007, é o guitarrista; e Zac, o baterista, depois de ter saído da banda como seu irmão Josh, em 2010, voltou à banda sozinho em algum momento do ano passado.

A última pessoa a sair foi Jeremy Davis, o baixista fundador, em 2015. Ações judiciais foram abertas de ambos os lados e resolvidas na primavera, sob termos não revelados. “Tell Me How”, uma doce balada de piano que encerra o After Laughter, é uma sombria reflexão sobre a partida dele: “I can’t call you a stranger/ But I can’t call you” [“Eu não posso chamá-lo de estranho/ Mas eu não posso chamá-lo”], ela canta. “Do I suffocate or let go?” [“Eu sufoco ou deixo ir?”]. Hoje, ela está cansada de falar sobre o espetáculo das mudanças na formação, alguns dos quais remetem à estrutura desigual do contrato da banda com a gravadora, e ela fala principalmente em generalidades quando o assunto surge. “Eu tive muitas traições em minha vida. Eu nem quero pintar a mim mesma como a vítima, mas acho que me assusta contar toda a história”, ela fala. “Eu realmente não quero apagar mais ninguém da minha vida. Eu fiz isso o suficiente”.

Conforme o sucesso da banda crescia, o poder estrelar de Hayley se mostrava mais brilhante. Ela fez parte da faixa de sucesso de 2010, “Airplanes”, do rapper B.O.B., que atingiu o segundo lugar no Top 40 das paradas musicais. Em 2011, ela apareceu na capa da Cosmopolitan, toda produzida como uma celebridade de Hollywood. “Eu tenho certeza que eles aumentaram os meus peitos”, ela relembra rindo. Uma vez, ela fala, em uma tentativa equivocada de empurrá-la na direção do rádio, Lyor Cohen, o legendário executivo que trabalhava na Atlantic na época, ligou no telefone dela para contar que ela precisava compor com o Chad Kroeger do Nickelback. Hayley educada, mas vigorosamente, recusou. “Apenas não é o que eu quero”, ela fala sobre a possibilidade de um estrelato mainstream solo. “Eu não sei se eu seria capaz de encarar milhares de pessoas se eu não pudesse olhar para minha esquerda e minha direita e atrás de mim e perceber que eu estou cercada por pessoas que sabem exatamente quem eu sou”.

Uma vantagem agridoce de todas as idas e vindas no Paramore tem sido que, conforme a formação evoluiu, o som evoluiu também. Essa é uma das razões pelas quais, 12 anos depois de o primeiro álbum deles ter sido lançado, o grupo está ainda por aí e, mais importante, ainda está relevante. Hayley é obcecada por Talking Heads e isso pode ser notado nos ritmos brincalhões e excêntricos do After Laughter. É uma grande distância dos riffs agressivos de guitarra do início de Paramore, em grande parte porque Taylor substituiu Josh como o parceiro de Hayley nas composições, e ele compartilha o amor dela por new wave e R&B, estilos de música que eles agora são livres para explorar juntos.

“Quando eu comecei a escrever”, Taylor fala, “eu trazia para a Hayley todas essas músicas com grandes, massivos riffs de guitarra – mais do mesmo. Cada ideia que eu tocava para ela, ela dizia ‘isso é bacana, mas você tem alguma outra coisa?’. A única coisa que eu tinha para mostrar para Hayley era ‘Ain’t It Fun’ – eu trouxe pequenos alto-falantes e montei eles sobre garrafas de água, apenas para que eles ficassem altos o suficiente. Era uma batida de bateria e marimba. Eu pensei que, de maneira nenhuma, aquilo era Paramore, mas os olhos dela se iluminaram. E aquilo foi um ponto transformador”.

“Ain’t It Fun”, uma canção sobre como é difícil a transição da adolescência para a vida adulta, serviu como ponto-chave para o álbum autointitulado de 2013 e se tornou um dos maiores sucessos deles até então. Como todos os álbuns anteriores, ele ganhou disco de platina, mas também recebeu a brilhante aclamação da crítica, algo que, apesar da popularidade da banda, muitas vezes escapou deles. A música tem um refrão triunfante – não diferente dos grandes sucessos do super-produtor Max Martin – e Hayley e Taylor não precisavam de uma máquina para elaborar isso por eles. Nem todo mundo entendeu imediatamente a reinvenção do Paramore, no entanto. Qualquer coisa que se assemelhasse a rock tinha sido tirada de rádios populares na era de estrelas caricatas como Katy Perry e Nicki Minaj. Antes de a gravadora tentar vender “Ain’t It Fun”, eles levaram uma música similar, a punk chiclete “Still Into You”, para testar as águas. Na Z100, uma das maiores rádios pop do interior, um programador disse a eles que ele simplesmente não podia colocar no ar guitarras.

Meses mais tarde, “Still Into You” e eventualmente “Ain’t It Fun” ganharam tanta força no próprio poder inegável da pegada “grudenta” delas que as duas alcançaram o Top 40. Voilà, havia guitarras na rádio pop novamente. Em 2015, “Ain’t It Fun” deu ao Paramore seu primeiríssimo Grammy, fazendo Hayley a primeira mulher a ganhar na categoria “Melhor Música de Rock” desde Alanis Morrissette, 16 anos antes. O som refinado e suavizado do Paramore também acabou se mostrando bastante presciente: Taylor Swift, amiga de Hayley, realizou um truque de mágica semelhante (embora em uma escala ainda maior) em 2014, quando ela deixou para trás o sutil ritmo country do seu passado para dar lugar a um brilho ainda menos afetuoso. Com a ajuda de Max Martin, Taylor colocou ênfase no tipo de poderosos refrões reforçados ao qual Hayley havia acabado de provar ser adepta à criar. Hayley até fez uma aparição do clipe de “Bad Blood”, uma rebelde música de luta que é o mais perto do espírito turbulento de Hayley que o espírito sadio de Taylor poderia chegar.

Hoje, Paramore está talvez em sua posição mais forte de todas, não somente porque eles sobreviveram à era pop punk e transcenderam à banda plenamente adulta, mas porque todo o mundo parece ter chegado à atitude febril que o Paramore iniciou. Todos, de artistas countries a rappers, estão borrifando um pouco de pop punk – o artista country de 22 anos Tucker Beathard recentemente contou à Pitchfork que não foi Brad Paisley quem o inspirou a se tornar um artista, foi ver o Paramore em seu aniversário de 14 anos. O rapper revelação e colega entusiasta de cabelos cor-de-rosa Lil Uzi recentemente gravou um vídeo de si mesmo cantando e sorrindo ao som de “Ain’t It Fun”, depois criou um dos maiores hits do ano da fusão de rock e hip-hop, “XO TOUR Llif3”. “Paramore expandiu meu gosto pela música”, diz Uzi. “Eles eram as crianças descoladas do quarteirão enquanto cresciam. Eles são incríveis pra caralho e é por isso que eu ainda curto eles”. A angústia está de volta.

E agora há o After Laughter, um novo álbum do Paramore quando a ideia do Paramore nunca fez tanto sentido. É o álbum excelente mais consistente de toda a discografia da banda. As letras são sentidas profundamente, como sempre foram, e a instrumentação mais leve combina com a força de Hayley como uma cantora – ela nunca soou tão clara e confortável, mesmo quando está cantando sobre dor. Então, como foi a sensação de lançá-lo? No dia que o álbum saiu, Hayley estava dominada pela tristeza. Não era tão ruim quanto havia sido nos dias sombrios em que ela não conseguia sair da cama e não queria escrever música, e ao fim da noite, ela estava se sentindo bem de novo – ela e os garotos colocaram o álbum para tocar e cantaram juntos. Mas mais cedo, particularmente em um meet and greet com cerca de 300 fãs, ela estava tendo dificuldades. “Era um dia muito pesado porque nós estávamos deixando ir essa coisa que achávamos que nos mantinha vivos”, ela disse. “E eu realmente acho que isso me manteve viva”.

Depois do almoço, Hayley vai para casa por um momento, e nós estamos combinados de nos encontrarmos com o resto da banda na casa do Zac, em um adorável trecho suburbano no Sul de Nashville, para uma noite de tacos e boliche. Mas há um grande desvio antes de eu chegar. Eu estou dirigindo com a publicista do Paramore, que me ofereceu uma carona, e antes de desembarcamos na casa de Zac ela deixa claro que a Hayley não está feliz com a linha de alguns dos meus questionamentos durante a entrevista naquela tarde. Quando eu pergunto quais questionamentos incomodaram Hayley, eu recebo poucas especificações.

Quando eu chego para passar um tempo com a Hayley e os garotos, eu sinto a frieza rapidamente. Hayley é educada, mas quieta. Ela mantém seus óculos de sol, está inquieta e mal fazemos contato visual. Uma vez que nos sentamos, eu tenho uma distinta sensação desconfortável de estar de volta ao refeitório do ensino médio, preso em uma mesa com um amigo que está brabo comigo, mas não está afim, ou não consegue, me explicar o motivo. Mexendo em meu celular, eu vejo no Twitter que, não muito tempo depois de termos nos separado, ela publicou algo mordaz: “apenas aproveite a droga da música”.

Um pouco desorientado, eu peço à publicista se eu e Hayley podemos conversar sobre o que foi que deu errado, e eu vou até a frente da casa do Zac para coletar meus pensamento e esperar por uma resposta. Hayley aparece com uma expressão notavelmente mais ensolarada de boa energia, e nós nos sentamos na varanda enquanto o céu se torna um cinza brilhoso, e então, mais tarde, um preto profundo.

Ela me conta que depois que nos falamos, ela teve um ataque de pânico em seu carro. Ela se desculpa profundamente por como o encontro se desenrolou e conta que o gatilho para ela foi quando eu perguntei sobre as consequências do processo com seu antigo companheiro de banda. Ela diz que razões legais fazem com que seja difícil ela saber o que pode ou não pode falar, e que a incomoda e a estressa o fato de que todas as reportagens recentes sobre a banda têm focado no drama e não nas músicas. É justo. Eu continuo cavando, no entanto, e eventualmente ela admite que foi mais do que isso, mas que está com dificuldade para explicar ou descobrir por si mesma o que é.

Eu ofereço que ela descanse sobre o assunto, falando que agora eu estava mais propenso a escrever sobre esse estranho episódio, e que seria bom se ela pudesse providenciar uma explicação mais completa na sua própria perspectiva. Essa ideia, para minha surpresa, parece imediatamente pescar o interesse dela. Ela rapidamente concorda e nos abraçamos, e então vamos para o boliche em um pequeno lugar neon que não parece ter sido redecorado desde os anos 80.

Zac compra um jarro de cerveja e Hayley é gentil comigo, me encorajando até quando eu erro todos os pinos. Alguém, reconhecendo a banda, coloca uma série de músicas do Paramore para tocar nos alto-falantes, e Hayley pula para cima e para baixo, pega uma bola cor-de-rosa que combina com seus óculos – ainda no rosto dela, apesar de ser 21:30 – e manda a bola voando direto para a valeta, onde fica estranhamente presa. Eu jogo uma bola roxa logo atrás para tentar desprender a dela, mas aquilo apenas aumenta o problema: enquanto a bola cor-de-rosa de Hayley consegue se soltar, a minha fica presa. Depois que fico em último lugar em nosso primeiro jogo, ela me parabeniza como se eu tivesse ganhado, e eu não estou certo se isso faz com que eu me sinta o garoto mais popular da aula de ginástica, ou o idiota desamparado que foi empurrado para uma poça e precisa de ajuda para se sentir mais animado.

Na noite seguinte, Hayley me busca em seu Fiat e dirigimos para um hotel boutique, com um bar espaçoso em uma parte de Nashville que está na moda. Eu percebo que o smoothie pela metade que eu comprei para ela no dia anterior continua no carro dela, agora marrom e fétido. “Vê o quanto eu sou nojenta?”, ela fala. No bar, eu conto para ela como fiquei chocado em saber que uma conversa, que eu tinha pensado ser bacana, pode ter desencadeado tal reação. “Eu comecei a pensar sobre todas as coisas que conversamos”, ela fala, “e sobre como eu estou passando por diversas daquelas coisas. Tipo, eu não superei esse álbum. E eu estou mais velha, também. Se eu fosse pegar minha bicicleta BMX agora, sabendo de todas as maneiras que posso me machucar, é diferente de ser a garota de dez anos de idade que eu costumava ser, montando e andando tão rápido e loucamente quanto todos os garotos da minha vizinhança”.

Ela fala que, ao passar dos anos, se tornou cautelosa em falar demais sobre si mesma ou sobre a banda, porque, em alguns círculos, as brigas e a perda de amizades pelas quais ela passou se tornam assunto para fofoca e manchete de notícias. Eu pergunto se o que ela escreveu em seu Twitter – sobre apenas aproveitar a droga da música – tinha sido pela frustração com a entrevista, e ela diz que não, que na verdade foi uma resposta para os fãs que não cansavam de mandar para ela imagens de gráficos sobre as vendas do álbum na primeira semana. Ela diz que está tão cansada do aspecto comercial da indústria musical que, antes de o After Laughter ser lançado, ela tentou renegociar o contrato com a Atlantic – que a contratou quando era adolescente – para que ela tivesse que entregar menos álbuns. “Eu não queria mais [o contrato] pairando sob a minha cabeça, e eu quero terminar com o lado comercial disso”, ela fala. A Atlantic não concordou em mudar o contrato.

Na visão da Hayley, tudo que ela queria eram amigos com quem fazer música. “Eu era apenas uma criança, e eu queria muito fazer parte de algo. Quando eu fui contratada sozinha, eu me senti muito sozinha”, ela fala. “Se meu pai estivesse sentado ao meu lado agora, ele lhe contaria sobre todas as páginas no meu diário em que eu desenhei a mim mesma e outros quatro amigos sem rosto em diferentes instrumentos. É por isso que quando eu vejo um jovem em um show e ele parece estar chorando seus miolos por estar em um lugar com milhares de pessoas que o compreendem, eu choro no palco. E eu escondo isso porque é constrangedor. Mas eu sei o que é sentir que você só quer encontrar o seu lugar. E esse é o meu lugar. Esse é o meu lugar”.

E aí, então, nós atingimos algo como um impasse. Ela diz que depois de uma década estando no olhar público, é melhor que algumas coisas não sejam ditas. “O que eu devo às pessoas?”, ela pergunta algumas vezes. E ela é inflexível que, apesar de todas as suas lutas, ela quer que o mundo saiba que há muita alegria em estar nessa banda nesse momento. “Não há nada que eu realmente queira dizer sobre o álbum que eu não tenha dito”, ela fala. “E é por isso que eu sou grata pela música. Porque eu posso expressar partes de mim que eu não sei bem como expressar”. Nós nos falamos por mais algum tempo, mas a conversa termina sem resolução. Ela fala que provavelmente não dará entrevistas por um tempo, pelo menos não sem seus parceiros de banda.

Hayley me oferece uma carona de volta para o meu hotel, e no caminho ela toca uma demo de “Forgiveness”, a faixa de After Laughter que eu tinha dito ser a minha favorita. Nós dois começamos a harmonizar juntos. É uma música sobre o quão difícil o perdão pode ser, mas naquele momento era apenas meio divertido. Às vezes você não é tão diferente da pessoa que era quando tinha 15 anos, passivo-agressivo e um pouco sensível demais às vezes, mas verdadeiro o suficiente para curtir músicas no carro. Ela diz que eu tenho uma boa entonação, mas eu não consigo definir se ela está apenas sendo legal ou se realmente acha isso.

Fonte: Notícia originalmente publicada por The Fader e traduzida por Claudia Dalmuth

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Por Claudia Dalmuth