“Eu vivi em látex por aqueles dois anos (…)” Hayley fala sobre a era RIOT e era Self Titled para a Track7

Paramore em photoshoot promocional do RIOT!, 2007.

Dez anos atrás, quatro amigos de Nashville, Tennessee, lançaram um álbum que definiria uma era: Riot!, o segundo álbum de um até então tímido Paramore, dominava as rádios e capas de revista da época, carregando um estilo que até hoje é icônico e é crucial na construção da identidade de incontáveis adolescentes.

Por causa de seu recente aniversário, uma enorme quantia de dedicatórias foram feitas ao álbum que representou – e ainda representa- um impacto na cultura alternativa e a vida de quem o escutou, e com razão. Mas longe da festa, o maior impacto que o Riot! causou foi na vida de seus criadores.

Recém chegada de uma tour na Europa – a primeira no ciclo do álbum After Laughter – a vocalista da banda Hayley Williams reflete sobre a vida à caminho do seu álbum de maior sucesso.

“Nós éramos adolescentes quando o Riot! saiu. Na verdade, fomos adolescentes por um longo tempo depois disso” ela riu “Eu tenho uma memória muito distinta – na verdade em algum lugar tem um vídeo disso – de todos nós, Taylor também, se divertindo em um parque. Era primavera, 2007, e a gente estava literalmente jogando em um parque, juntos. O quão inocente era aquilo? De muitas formas, foi a última temporada descomplicada pra nós, como amigos.”

As crianças naquele parque não podiam prever a escala do sucesso – ou as complicações – que estavam por vir. Sair de esperançosos à superstars globais não é algo que qualquer banda pode realmente esperar pra se preparar pra ser, não importa o quão grande são suas ambições. De qualquer maneira, tinha um sentimento de que algo ia acontecer.

“Tinha uma animação ao redor disso que nós sabíamos que era diferente de qualquer coisa que a gente tivesse passado” Williams diz “Claro, a gente tinha lançado só um álbum até então… mas eu quero dizer que nós estávamos confiantes de que as pessoas – ou pelo menos as pessoas certas – entenderiam. Especialmente uma vez que toda a estética e a nossa idéia do álbum físico se tornasse tão coesiva, tão sem esforço. Foi um momento de gênio na lâmpada na hora certa.”

Logo depois, a primeira ficha caiu para a banda.

“Alguns meses antes de lançar o álbum” Williams continua “a gente estava indo para um show no The Underworld e estávamos todos olhando pela janela do carro, vi a palavra RIOT pintada com spray em um dos lados de um prédio, bem longe do lugar que a gente ia tocar. Eu sabia que era pra nós porque estava feita com a mesma letra, quase que igual ao que estava na capa do álbum. Naquele momento, eu falei em voz alta “As pessoas entenderam! Esse é o melhor símbolo que a gente podia ter…que as outras pessoas estão fazendo o seu próprio.”

Paramore no The Underworld, em Londres, maio de 2017.

Apenas uma noite antes daquele show, a banda estreiou o clipe de ‘Misery Business’, que seria o hino do pop punk daquele verão. Graças à esse vídeo, Hayley Williams se tornou um ícone de cabelo de fogo, um totem para a raiva adolescente e rebelião corajosa. Em apenas alguns meses, Williams foi de passear no parque com seus amigos à uma rock star. Agora, cercada por sua própria imagem e com os holofotes brilhando tão forte nela, até as coisas mais triviais se tornam obrigações comerciais.

“Era muito estranho. A gente pegou um patrocínio pra uma turnê com uma companhia telefônica que não nos deixava usar celulares que não fossem os deles. Tudo que eu queria fazer era sair por ai com um ar arrogante com o meu T-Mobile Sidekick III. Enfim, passamos dois meses fingindo usar esses celulares e a companhia faliu nem um ano depois.”

Fora do centro das atenções e longe das máquinas corporativas que vinham com o sucesso, de qualquer forma – “O sucesso daquele álbum meio que lançou uma sombra na pureza do que a gente fez quando começamos a banda” Williams admite – aquela banda ainda era a mesma, com as mesmas crianças, fazendo tudo que podiam para manter seus pés no chão.

Paramore (na época Jeremy Davis, Josh Farro, Hayley Williams e Zac Farro) no backstage do The Underworld, em Londres, maio de 2017.

“A primeira grande turnê que fizemos durante o ciclo do RIOT foi no outono de 2007. Um monte de teatros lindos onde abrimos shows mas nunca fomos a atração principal. Um monte de fãs novos que apareceram e nós queríamos mostrar que tinha mais na gente do que eles tinham visto na MTV. Tinha profundidade e raízes além dos posters com a gente usando cortes de cabelo do Myspace.”

“Fizemos um cover do Sunny Day Real Estate naquela tour, eles eram um dos nossos favoritos. Era uma música de uns 6 minutos e toda noite nós sabíamos que apenas algumas pessoas saberiam canta-la. Acabou que foi uma boa lembrança de que toda noite, mesmo que as coisas estivessem ficando loucas demais, tudo isso começou em um dia depois da escola na casa dos Farro ou no porão dos York…aprendendo a tocar músicas e interagindo por causa de bandas que amávamos.”

Hayley Williams é uma pessoa diferente hoje em dia. Em 2017, ela já esteve em todos os lugares e já viu de tudo. Williams está longe de ser o tipo de pessoa que diz saber tudo – na verdade, tanto no papel quanto em público ela deixa muito claro que não sabe – mas algumas sérias lições foram aprendidas e muitas realidades encaradas.

Uma das realidades mais duras foi a necessidade de credibilidade como artista. Não muito tempo atrás, Williams foi questionada por uma parte do público que colocava em cheque a validade de seu feminismo. Seus argumentos sendo os de que uma mulher que uma vez cantou “Uma vez prostituta, você não é mais nada/ Desculpe isso nunca vai mudar” como ela cantou em Misery Business, não pode nunca ser vista como um ícone do feminismo. Williams respondeu com um post onde ela destacou a importância do crescimento e declarou “Eu sou uma pessoa de 26 anos. E sim, feminista com orgulho. Só que talvez não uma feminista perfeita.”

“O que me irritou” Hayley diz “foi que eu já tinha feito tantas análises sobre mim mesma sobre isso, anos antes qualquer pessoa tivesse olhado e decidido que isso era um problema. Quando o artigo começou a circular, eu tive que pegar e expôr todas essas análises na frente de todo mundo. Mas era importante mostrar humildade naquele momento. Eu era uma adolescente de 17 anos quando escrevi aquela música em questão e se eu puder de alguma forma exemplificar o que significa crescer, conseguir informação, e me tornar alguém “mudado”, tá tudo okay por mim.”

 

Paramore no clipe de Misery Business.

No décimo aniversário do lançamento de Misery Business, Williams postou um tweet onde se refere à música como “bichinho de cabeça virada”, recomeçando a conversa sobre se responsabilizar por sua arte e a ideia de crescer longe de seu trabalho passado. Isso deu margem à especulações entre fãs e críticos sobre se isso era apenas uma consequência de ser uma liricista honesta ou simplesmente ser jovem demais pra saber as coisas. Quando perguntada diretamente sobre isso, Williams foi aberta.

“Eram ambas as coisas. A letra veio literalmente de uma página do meu diário. O que eu não sabia na época era que eu estava alimentando uma mentira que eu mesma tinha comprado, assim como outras várias adolescentes – e muitos adultos – antes de mim. Toda aquela coisa de ‘Eu não sou igual às outras garotas’…essa religião da ‘cool girl’. O que é isso? Quem é que define o que é cool? São homens? São mulheres que colocamos em um pedestal inalcançável?”

“O que tem de errado com a letra não é que eu tinha um problema com alguém da escola. Isso é apenas o ensino médio e amizades e términos. O problema é que tentei chamar a atenção dela usando palavras que não pertencem à essa conversa. É o fato de que a história foi montada dentro de um contexto de competição que não existe por causa de um romance.”

Quando o Paramore recentemente tocou Misery Business no Royal Albert Hall em Londres e chegou a hora de cantar a frase em questão, Williams optou por não canta-la. Foi um gesto pequeno, mas são indicações claras que seus sentimentos em relação à música hoje em dia são mais do que algo que ela vai dizer na hora certa em alguma entrevista ou nas redes sociais.

 

Paramore no Royal Albert Hall, Londres, 19.06.2017

É raro ver um artista fazer isso. Sem mirar nenhuma banda em particular, imagine o quão mudos os cantores de pop punk teriam que ser no palco se adotassem a mesma posição. Claramente tem um certo consenso entre bandas, fãs e a mídia de que artistas nem sempre serão os seus melhores em seu conteúdo lírico. Williams não teve que falar sobre o problema logo de cara, mas é claro que poder confrontar essas coisas é importante para seu crescimento pessoal.

“Eu gosto de saber que no final do dia eu fiz a coisa certa” Hayley diz “E quem sabe, talvez isso tudo é em vão? Meu caminho é o meu caminho – não tem mais de uma coisa igual. Por alguma razão, eu acredito que era pra eu escrever essas palavras distorcidas e que era pra eu aprender algo delas… anos depois. Me fez ter mais compaixão em relação à outras mulheres, que talvez tem ansiedades sociais… e em relação à garotas mais jovens que estão neste mesmo momento aprendendo a lidar e se relacionar e conectar. Estamos todas tentando o nosso máximo. É bem mais fácil quando temos apoio e comunidade uma na outra. Vulnerabilidade ajuda a pavimentar o caminho pra isso tudo.”

No novo álbum After Laughter, Williams é a versão mais franca e honesta de si mesma de todos os discos do Paramore. Parece mais uma compilação de páginas de um diário do que “Misery Business” parecia. É uma coleção de músicas sobre depressão, auto avaliação brutal, e todos os sangues e vísceras emocionais; mas o mais impactante de todos é ‘Idle Worship’, uma música de três minutos sobre toda a confusão e frustração que vem com ser colocada em um pedestal.

Sendo que RIOT! foi a catálise pra isso tudo, é natural sugerir que letras como “Não prenda sua respiração, eu nunca disse que te salvaria, querido” e “Se for okay, um pouquinho de gentileza seria apreciado” podem ter sido pensadas com aquela era em mente. Acontece que não. Esses sentimentos são mais universais do que aquilo.

“Eu não diria que a era RIOT! foi tanta inspiração praquela música quanto o Self Titled foi.” Williams revela “Eu estava realmente positiva naquele tempo. Eu era uma super-mulher que cegamente acreditava que todas as minhas melhores intenções eram boas o bastante pra me fazer passar por qualquer decepção em potencial que estivesse esperando por mim. Você não pode se preparar pra quando um piano vai cair do céu na sua cabeça. Ele apenas vai cair.”

“Quando eu finalmente tive um tempo pra mim, nós demos um tempo de quase três anos, não tive distrações” ela continuou “Não tinha capa de super herói no meu armário. Era eu e um espelho no banheiro. Não tinha quantidade de selfies que eu tirasse com fãs que iria me fazer sentir ser invencível, nunca mais. Deve ser difícil pra um fã do Paramore ouvir essa música…mas as pessoas precisam entender que deixei eu mesma pra baixo mais do que qualquer pessoa. Eu me preparei pra falhar! Pra começo de conversa, eu vivi em látex por aqueles dois anos e parecia um super herói. Quando a depressão me acertou, eu mal sai dos meus pijamas. Escrever ‘Idle Worship’ foi o começo de encontrar minha voz de novo.”

“Hoje em dia, usar roupas loucas e vintage é tanto um triunfo pra mim quando pintar meu cabelo de cinco cores diferentes. Me lembra daquela pessoa colorida que eu sempre fui, mesmo antes de qualquer pessoa prestar atenção. Não um super herói ou um bicho preguiça de pijama, apenas um ser humano estranho e brilhante.”

E ‘Caught in the Middle’? Aquela frase ‘Eu não posso pensar sobre quem eu era porque só me faz querer chorar’? Era o RIOT, certo? Mais ou menos.

“Sabe quando eu estava falando sobre passear no parque antes do RIOT ser lançado?” Williams pergunta “É uma mistura entre esse sentimento e o super herói que eu fingi ser durante o Self Titled. Eu tive que deixar essas versões minhas irem embora pra poder crescer e dar um passo pra frente como adulta. Nem é arrependimento, é mais uma sensação de sobriedade de que ‘todas as coisas devem passar’.”

Claramente, a perspectiva de Hayley hoje em dia é construída por bem mais do que apenas o álbum que lançou sua banda ao topo – não importa quantas perguntas sejam feitas para tentar descobrir respostas paralelas – mas uma parte do After Laughter que certamente pode ser analisada contra o que veio antes dele, é a música ‘Forgiveness’. Neste track, o próprio conceito de perdão é pintado em uma luz borrada, revelando-o ser uma besta intimidadora e complicada que realmente é. Um eco de ‘Desculpe querido, mas essa eu passo’ que Williams cantou em Misery Business.

“Uma das maiores lições da minha vida é aprender o que perdão realmente é” Williams diz “Eu tive muitas oportunidades de oferecer e aceitar. Mas pra realmente entender isso é outra coisa. Uma das melhores citações que li sobre isso – acho que foi um pastor que disse – foi ‘Quando você perdoa, significa que você absorve a perda e o débito. Todo perdão então, custa caro‘. Quando você pensa sobre isso, vai te deixar meio perdido por um tempo.”

Isso é onde Hayley está hoje; descobrindo o presente ao invés de duelar no passado. Ela certamente mencionou a era do pivô RIOT várias vezes ao longo dos anos, mas o álbum em si não é o “seja tudo isso e termine com tudo aquilo”.

“Eu acho que a razão que passei tanto tempo passeando ao redor dessas memórias é porque o pivô estava na verdade em nossas próprias vidas pessoas mais do que no Paramore como uma unidade. Pra mim, parece mais como a parte onde a vida ficou complicada. É o que eu imagino que seja quando alguém percebe que seus dias na escola acabaram e que agora é hora de lidar com mais coisas. Vida real.”

Mas e o RIOT, hoje? O décimo aniversário veio e foi, e enquanto a maioria das bandas usa um evento desses para fazer uma grande música ou dança, Paramore fez pouco barulho com isso. Não recebemos cinquenta versões diferentes em vinil, e a banda não está fazendo uma turnê para “relembrar”.

“Nós não estamos muito na vibe de olhar pra trás nesse momento” Williams disse “Teve um tempo depois que terminamos a turnê do Self Titled onde eu fiquei com bastante medo de que os meus melhores dias já tivessem passado. Sentiu um pouco como se fosse uma morte. Quando finalmente tínhamos demos que nos animaram, eu não estava mais tão sem esperança. Eu dou muito crédito ao Taylor por me dar a coragem que eu tive durante aquele tempo. Agora que estamos aqui, parece que estamos em uma banda nova. Sabemos como honrar e apreciar nossos velhos tempos mas essa não é a hora de ser brega e nostálgico sobre tudo.”

Hayley Williams tem uma coisa que ela pode trazer de olhar para trás: seu ponto de vantagem não é arrependimento, auto crítica, ou colher as glórias do passado. Ao invés disso, é uma conclusão profunda que fala mais sobre a vida do que qualquer outra coisa sobre um disco de platina.

“O que eu trago daquela temporada da vida” ela conclui “é que todos temos nosso verão de ouro – o que RIOT realmente foi – que nós podemos tentar e raspar os restos pra sempre… ou a gente pode apreciar o que aconteceu e seguir em frente. Temos que achar outros verões. Aqueles outros verões definitivos em nossos vidas que nos fazem sentir que estamos exatamente onde devemos estar. Se você está sempre olhando pra trás, olhando pra direção de onde você veio, como você pode aproveitar onde você está hoje? Você tem que se dar uma chance.”

 

Matéria publicado pela Track7 e traduzida por Mayara Souza.