Em entrevista à VICE, Hayley fala sobre as pressões do meio artístico

Hayley Williams: “tudo vai ser tudo”

A líder do Paramore, de fala sincera e cabelo frequentemente rosa, cresceu com seus fãs – mas o novo álbum, “After Laughter,” fala em um novo nível sobre as pressões e os prazeres de crescer com o rock.

 

Hayley Williams está saltitando ao redor do palco do Royal Albert Hall, em Londres, com um sutiã de uma fã na cabeça. O público, que há tempos abandonou os assentos marcados e agora se esmaga junto na frente do palco, grita com alegria enquanto o riff ousado de xilofone da abertura de “Hard Times” soa. O lugar está estremecendo com tanta alegria que as letras da música parecem quase que comicamente fora de lugar. “All that I want is to wake up fine” [“Tudo que eu quero é acordar bem”], Williams canta, pisando com força a cada palavra conforme o sutiã voa da sua cabeça, “Tell me that I’m alright, that I ain’t gonna die” [“Diga-me que estou bem, que não vou morrer”]. Para uma música sobre viver embaixo da nuvem negra da depressão, ela tem uma enorme batida.

Essa contradição tonal corre pelo coração do quinto álbum do Paramore, After Laughter. As sinceras reflexões do álbum, sobre autosabotagem, depressão e o resultado de relacionamentos quebrados são envoltos em um alegre pop sintético inspirado nos anos 80. Apesar de, inicialmente, ela ter se preocupado com o fato de que a coisa toda poderia parecer discordante – especialmente porque o Paramore construiu seus dez anos anteriores como uma banda de punk-rock, fervendo com uma raiva adolescente –, a abordagem provou-se catártica para Williams. Seu lema, inspirado por seus heróis de infância The Cure e Talking Heads, é “cry hard, dance harder” [“chore muito, dance muito mais”].

Falando ao telefone de Los Angeles, Williams reflete em canalizar suas lutas internas para a música, as pressões incapacitantes da fama (particularmente para uma artista feminina), e o por que de ela ser grata por estar viva.

Há uma linha de pessimismo no After Laughter que vocês abraçam e rejeitam ao mesmo tempo, conforme o álbum anda. Como um todo, onde você acha que isso pousa?

Eu tenho brincado ultimamente que eu sou uma realista em recuperação. Na época que nós escrevemos [nosso terceiro álbum] Brand New Eyes, eu parei de me deixar ser esperançosa e sonhadora demais, porque eu senti como se toda vez que eu era guiada pelo meu coração e não pela minha mente, eu terminava sendo ferida. É algo com o que eu venho lutando muito na minha vida. Eu parei de pensar em termos do que eu poderia sonhar e comecei a pensar sobre o que era realmente possível. Eu não acho que isso seja ruim, mas eu também quero sonhar um pouco. Eu passei por coisas nos últimos anos onde, se eu não tivesse meus sonhos, se eu não tivesse um jeito de procurar a luz no fim do túnel, seria simplesmente inútil tentar sobreviver aos meus dias. É difícil responder onde eu acho que isso realmente pousa, mas eu acho que o álbum todo meio que me acompanha, tipo, “bem, hoje eu estou sofrendo porque eu só quero sonhar e eu quero muito ter expectativa sobre alguma coisa”, e então no dia seguinte eu acordo e é tipo, “urgh. Eu não vejo o pino de luz no final do túnel. Ele se foi, e eu tenho que me concentrar no que está na minha frente”. Talvez isso seja algo para as outras pessoas decidirem, e colocar no contexto de suas próprias vidas.

Quando você percebeu que a música estava se movendo nessa direção, você se preocupou que não seria apropriado para acompanhar com letras tão sombrias?

Sim, eu estava muito preocupada. Eu falei para o Taylor por cerca de seis meses, “você tem que me trazer uma melodia triste, por favor”. Taylor poderia escrever a coisa mais feliz que você já ouviu enquanto ele passa por algo muito pesado na própria vida. Eu quero lidar com as coisas dessa maneira de vez em quando, onde eu posso apenas flutuar acima [dos meus sentimentos], mas também reconhecer que eles estão lá. Eu estava tão dentro da minha própria cabeça, foi difícil. Graças a Deus, o Taylor escreveu aquelas músicas, porque eu ficaria tão assustada se eu tivesse que passar por tudo aquilo de novo toda a vez que eu cantasse. Eu quero ser capaz de espantar algumas dessas coisas dançando. Eu continuo falando, “chore muito, dance muito mais”. E é como eu me sinto, estando no palco e tocando aquelas músicas, eu fico tipo “cara, a vida é realmente difícil às vezes, mas eu vou tentar e pegar isso no meu ritmo e pisotear por tudo isso, e dançar e passar por esse dia da melhor maneira que eu puder”. Então eu estou realmente grata pela relação entre a melodia e as letras, é realmente curador. Há uma coisa tão boa para mim em sentir inteiramente cada emoção, quase de uma vez, e realmente saber que você está viva.

Você mencionou mais cedo que você está muito dentro da sua própria cabeça. Em “Idle Worship”, você lida com as pressões de servir como modelo – o que é uma frustração tão compreensível – mas quanto daquela pressão você sente que era interna, e quanto era externa?

Eu me encontrei em um estado de espírito realmente estranho nos últimos anos, onde eu estava passando por essas coisas na minha vida pessoal, mas nós tínhamos acabado de sair desse álbum de sucesso. As pessoas viriam até mim na minha cidade natal e teriam fotos minhas em um tipo de pose de super-heroína em suas camisetas, e eles falariam “oh, você é perfeita, eu me inspiro em você há tanto tempo”. Eu nunca descartei nada do que eles falaram porque é a verdade para eles e eu aprecio isso, mas o que eu não conseguia relevar era o quanto aquilo contrastava com a maneira que eu me enxergava. Eu apenas me senti tipo, “wow, essa pessoa que eu estou encarando não faz ideia que eu provavelmente estou me saindo pior do que elas. E elas estão pedindo por conselhos, e estão falando que eu sou perfeita”. Isso me deixou muito braba comigo mesma por não estar naquele nível, e eu nunca poderia estar. E isso me fez pensar, “eu me pintei como alguém que pode lidar com isso? Será que eu fiz isso comigo mesma?”. Eu fui para casa não muito tempo depois daquilo, escrevi em cima de uma música que o Taylor tinha me entregado há semanas e semanas, e finalmente consegui colocar tudo para fora.

Às vezes eu me pergunto se artistas mulheres são colocadas em um padrão mais alto quando se trata de ser um modelo.

Eu concordo totalmente com isso. Existem tantas partes mais sutis nessa conversa que eu experimento diariamente, e às vezes eu não consigo nem identificar isso, apenas sei que está acontecendo. Nós estávamos saindo do aeroporto ontem, e ultimamente nós temos recebido paparazzis nos aeroportos. Nosso gerente de turnê perguntou “você quer ir direto para a van?” e eu fiquei tipo “quer saber, eu quero – porque eu não me sinto confortável tendo uma câmera enorme na minha cara, eu fico com muita ansiedade e começo a tremer – mas eu não quero ir a menos que Taylor e Zac venham comigo. Se eu for e ninguém mais for comigo, então eu serei a babaca, eu serei aquela que deixa os colegas de banda para trás”. São essas escolhas sutis que eu tenho que fazer, que são em antecipação ao fato de eu ser um alvo apenas por ser uma mulher em uma banda. Eu tento não me pintar em uma luz de vítima, porque eu me sinto forte. Eu fui colocada nessa vida e eu sei que posso lidar com isso, mas eu definitivamente sinto. Eu definitivamente sei o que é ser colocada em um padrão que é simplesmente impossível e inalcançável.

Você falou sobre como você sente que está vivendo as músicas do After Laughter em tempo real. É um desafio falar e cantar sobre sentimentos nos quais você ainda está no meio?

Se eu pudesse ter planejado isso, eu teria dito “deixe-me colocar minha vida em ordem, descobrir as respostas para todos esses problemas e então nós lançaremos um álbum, e eu serei capaz de falar nessa plataforma sobre como tudo vai ficar bem”. Mas eu não quero ser a porta-voz de “tudo vai ficar bem”. Eu só quero falar “tudo vai ser tudo”. Eu não sei o que isso significa para alguém que não é quem eu sou, mas tudo que eu posso fazer é acordar, cantar uma música que eu amo mais do que tudo no mundo, e então ir para casa e deitar minha cabeça e ficar realmente orgulhosa de mim mesma por fazer isso. Eu sou tão grata por viver essa vida com meus melhores amigos. Essas são as pessoas com quem eu fui para a escola junto, e nós começamos uma banda e de alguma maneira nós estaremos tocando em um programa de TV ao vivo hoje à noite, apresentando essas músicas que escrevemos juntos. Isso tudo apenas me deixa muito grata e orgulhosa por simplesmente estar viva e sentindo.

 

Fonte: Notícia originalmente publicada por Vice e traduzida por Claudia Dalmuth